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segunda-feira, agosto 19, 2013

Madrigal da sombra

Sombra que passas, eu sei que és sombra,
eu sei que és sombra, sombra que falas.
Não deixas passo em nenhuma alfombra
das altas, graves, eternas salas.

Mas os que choram de sala em sala,

mirando espelhos, mirando alfombras,
choram teus passos e tua fala,
e o seu destino de amar as sombras...



Para Jonatas Santos, por mais um ano.
De lucas repetto.
Deixo um abraço fraterno para esse rapaz de sentimento(poesia)s nada descartáveis.

sábado, junho 30, 2012

Fadiga


Estou cansada, tão cansada,
estou tão cansada! Que fiz eu?
Estive embalando, noite e dia,
um coração que não dormia
desde que o seu amor morreu.

Eu lhe dizia: ''Deixa a morte
levar teu amor! Não faz mal.
É mais belo esse heroísmo triste
de amar uma coisa que existe
só para morrer, afinal!...

Deixa a morte... Não chores... dorme!''
Noite e dia eu cantava assim.
Mas o coração não falava:
chorava baixinho, chorava,
mesmo como dentro de mim.

Era um coração de incertezas.
feito para não ser feliz;
querendo sempre mais que a vida
— sem termo, limite, medida.
como poucas vezes se quis.

O tempo era ríspido e amargo.
Vinha um negro vento do mar.
Tudo gritava, noite e dia
— e nunca ninguém ouviria
aquele coração chorar.

Uma noite, dentro da sombra,
dentro do choro, a sua voz
disse uma coisa inesperada,
que logo correu, derramada
num silêncio fino e veloz.

''Meu amor não morreu: perdeu-se.
Ele existe. eu não o quero mais.''
O choro foi levando o resto.
Eu nem pude fazer um gesto,
e achei as horas desiguais.

E achei que o vento era mais forte,
que o frio causava aflição;
quis cantar, mas não foi preciso.
E o ar estava muito indeciso
para dar vida a uma canção.

A sorte virara no tempo
como um navio sobre o mar.
O choro parou pela treva.
E agora não sei quem me leva
daqui para qualquer lugar,

onde eu não escute mais nada,
onde eu não saiba de ninguém.
onde deite a minha fadiga
e onde murmure uma cantiga
para ver se durmo, também.


Fragmento: Viagem & Vaga Música — Cecília Meireles

sábado, março 31, 2012

Vinho

A taça foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebi,
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.

Desde essa hora antiga e preclara,
insensivelmente desci,
e em meu pensamento senti
o desgosto de ser criatura.

Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te vi,
como que desapareci...
Rondo triste, à minha procura.

A taça foi brilhante e rara:
mas, com certeza, enlouqueci.
E desse vinho que bebi
se originou minha loucura.


Fragmento: Viagem & Vaga Música — Cecília Meirelles