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quarta-feira, agosto 14, 2013

Fumo

Para Marcuss, por um momento...


Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são outonos: choram... choram
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!...



segunda-feira, abril 30, 2012

Mocidade


Para Bruna Gabriela, por mais um ano.
De lucas repetto.


A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa,
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;

Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
— Trago-a em mim vermelha, triunfante!

No meu sangue rubis correm dispersos:
— Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!

Ama-me doida, estonteadoramente,
Ó meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...


Fragmento: Poemas de Florbela Espanca — Charneca em flor

terça-feira, abril 17, 2012

A um livro

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
É uma sombra triste que ando a ler
No livro cheio de mágoa que me deste!

Estranho livro aquele igual a mim!
Cheira a mortos a rir e a cantar...
É dum branco sinistro de jasmim,
Que só me dá vontade de chorar!

Parece que folheio toda a minh’alma!
O livro que me deste, em mim salma
As orações que choro e rio e canto!

Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!


Fragmento: Poemas de Florbela Espanca — Trocando Olhares

quinta-feira, abril 12, 2012

Em vão

Passo triste na vida e triste sou
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
Que não diz onde vai nem donde vem.

Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
A flor da minha boca desdenhou!
Solitário convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou!

E eu quero bem a tudo, a toda a gente!...
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!

E tem passado, em vão, a mocidade
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flores a sombra dos meus passos!


Fragmento: Poemas de Florbela Espanca — Reliquiae (1931, póstuma)