sexta-feira, abril 06, 2012

Loja de antiguidades


Existe em ti e em mim
essa nostalgia que nos faz andar
perdidos na poeira ambígua
dos recados do tempo.
O teu olhar demora-se nas lâmpadas
bordadas: Gallé, esse velho artesão,
sabia o que fazia.
E as unhas nacaradas da mulher
expõem o objeto carregado de beleza
sobre uma alma esteta
que tanto trabalho lhe deu a transformar.
Reparem nesta peça – e a sua garganta
ressoa a arte nova, imperiosa.
Buscamos no vivido um óleo
intransmissível
para os nossos corpos.
Silenciosamente andamos nessa gruta
dentro da cidade onde os ruídos caem
como lanças bárbaras
e a luz fria da noite
estilhaça a nossa vista.
É bom pousar assim tanta memória
nas mãos férteis e frágeis
das coisas esquecidas.
Mas à saída, justamente à porta,
as mãos de outra mulher, meticulosas,
rebuscavam no chão, entre outras peças,
outras coisas vividas, esquecidas,
enfim, outros destroços:
do fascínio da carne, os pedacinhos de ossos.


Fragmento: Armas Brancas e outros poemas — Armando Silva Carvalho

domingo, abril 01, 2012

Meia hora depois, tomei-lhe...



Meia hora depois, tomei-lhe a mão com sangue frio e disse-lhe no ouvido:

— Vossas armas, senhor?
— Saber-las-eis no lugar.
— Vossas testemunhas?
— À noite e minhas armas.
— A hora?
— Já.
— O lugar?
— Vireis comigo... Onde pararmos aí será o lugar...
— Bem, muito bem: estou pronto, vamos.



Fragmento: Noite na Taverna – Álvares de Azevedo

sábado, março 31, 2012

Vinho

A taça foi brilhante e rara,
mas o vinho de que bebi,
com os meus olhos postos em ti,
era de total amargura.

Desde essa hora antiga e preclara,
insensivelmente desci,
e em meu pensamento senti
o desgosto de ser criatura.

Eu sou de essência etérea e clara:
no entanto, desde que te vi,
como que desapareci...
Rondo triste, à minha procura.

A taça foi brilhante e rara:
mas, com certeza, enlouqueci.
E desse vinho que bebi
se originou minha loucura.


Fragmento: Viagem & Vaga Música — Cecília Meirelles

quinta-feira, março 29, 2012

Soneto

Gênio das trevas lúgubres, acolhe-me,
Leva-me o espírito dessa luz que mata,
E a alma me ofusca e o peito me maltrata,
E o viver calmo e sossegado tolhe-me!

Leva-me, obumbra-me em teu seio, acolhe-me
N’asa da Morte redentora, e à ingrata
Luz deste mundo em breve me arrebata
E num pallium de tênebras recolhe-me!

Aqui há muita luz e muita aurora,
Há perfumes d’amor — venenos d’alma —
E eu busco a plaga onde o repouso mora,

E as trevas moram, e, onde d’água raso
O olhar não trago, nem me turba a calma
A aurora deste amor que é o meu ocaso!


terça-feira, março 27, 2012

Liberdade? Democracia?

lucas repetto

Questiona-se a veracidade da democracia e liberdade neste país, mas a realidade é que não estamos preparados para a verdade autêntica destas manifestações! Não temos cérebro e muito menos coração para uma sociedade verdadeiramente livre e democrática.

Basta olhar para o lado e perceber que: usar a camisa de outro time tira o direito à vida, manifestação de amor é julgada, artista tentando comer o rabo do outro quando estes deveriam promover a liberdade da alma, intolerância pela aparência física do próximo, ignorância de raciocínio e aceitação acerca da crença religiosa ou não do outro, etc.

E queremos liberdade, democracia? Somente se for para o umbigo! Isto sim. 

quarta-feira, março 14, 2012