quarta-feira, agosto 15, 2012

palavr[e(xpress)ar]

Para Amir Brito Cadôr, por mais um ano.
De lucas repetto.


I

O quê palavr[e(xpress)ar] para um magistral dos caracteres desenhados ou escritos?

— vividos —

(sendo tudo um todo e es[s][t]e todo o tudo de nós)

II

Reino sem fim do sentimento.

Sem fim também o que mantemos no sonho.

(não era melhor rimar? mas, será que o melhor é o que há no intento?)

III

Logo, parabéns para você.

Uma flor riscada também.

(...)


sábado, junho 30, 2012

Fadiga


Estou cansada, tão cansada,
estou tão cansada! Que fiz eu?
Estive embalando, noite e dia,
um coração que não dormia
desde que o seu amor morreu.

Eu lhe dizia: ''Deixa a morte
levar teu amor! Não faz mal.
É mais belo esse heroísmo triste
de amar uma coisa que existe
só para morrer, afinal!...

Deixa a morte... Não chores... dorme!''
Noite e dia eu cantava assim.
Mas o coração não falava:
chorava baixinho, chorava,
mesmo como dentro de mim.

Era um coração de incertezas.
feito para não ser feliz;
querendo sempre mais que a vida
— sem termo, limite, medida.
como poucas vezes se quis.

O tempo era ríspido e amargo.
Vinha um negro vento do mar.
Tudo gritava, noite e dia
— e nunca ninguém ouviria
aquele coração chorar.

Uma noite, dentro da sombra,
dentro do choro, a sua voz
disse uma coisa inesperada,
que logo correu, derramada
num silêncio fino e veloz.

''Meu amor não morreu: perdeu-se.
Ele existe. eu não o quero mais.''
O choro foi levando o resto.
Eu nem pude fazer um gesto,
e achei as horas desiguais.

E achei que o vento era mais forte,
que o frio causava aflição;
quis cantar, mas não foi preciso.
E o ar estava muito indeciso
para dar vida a uma canção.

A sorte virara no tempo
como um navio sobre o mar.
O choro parou pela treva.
E agora não sei quem me leva
daqui para qualquer lugar,

onde eu não escute mais nada,
onde eu não saiba de ninguém.
onde deite a minha fadiga
e onde murmure uma cantiga
para ver se durmo, também.


Fragmento: Viagem & Vaga Música — Cecília Meireles

sábado, junho 23, 2012

É estranho


É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.


Fragmento: Flor da Morte — Henriqueta Lisboa

terça-feira, junho 19, 2012

Pra ganhar um arco-íris

Para Paulo Carvalho (Pretty), por mais um ano.
De lucas repetto.

O médico franze o cenho
e em voz baixa, num cochicho,
diz é coisa grave,
pode morrer.

A casa emudece. Pétalas
tombam do vaso, na toalha.
A mãe de Lico chora, chora
e depois se cala.

O pai se levanta
e parte, após muita espera.
E volta tarde, bem tarde:
arrasta um arco-íris
de primavera.
— Pra ti, guri.

E Lico sara,
abre um sorriso
está feliz, bem se vê,
e eu imagino um jeito
de adoecer.


Fragmento: Restos de arco-íris — Sérgio Caparelli

quinta-feira, maio 31, 2012

Os dois lados

Para Bruno Oliviere, por mais um ano.
De lucas repetto.
Em mim cultivo
o lírio e o cacto
(o lírico e o sátiro)

Em verdades
sou plumas;
contra a farsa
sou áspero.

Para o bom
sou manso;
por dom 
sou triste.

E contra o mau
sempre aponto
o meu verso
em riste.


Fragmento: Menino sem fim — Wilson Pereira

Penthésilée


Raoul Ubac, Penthésilée, 1937; photograph; gelatin silver print, 15 1/2 in. x 11 1/4 in. (39.37 cm x 28.58 cm); Collection SFMOMA, Gift of Robert Miller; © Artists Rights Society (ARS), New York / ADAGP, Paris




Fonte: Sfmoma