quinta-feira, abril 12, 2012

Em vão

Passo triste na vida e triste sou
Um pobre a quem jamais quiseram bem!
Um caminhante exausto que passou,
Que não diz onde vai nem donde vem.

Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdém
A flor da minha boca desdenhou!
Solitário convento onde ninguém
A silenciosa cela procurou!

E eu quero bem a tudo, a toda a gente!...
Ando a amar assim, perdidamente,
A acalentar o mundo nos meus braços!

E tem passado, em vão, a mocidade
Sem que no meu caminho uma saudade
Abra em flores a sombra dos meus passos!


Fragmento: Poemas de Florbela Espanca — Reliquiae (1931, póstuma)

terça-feira, abril 10, 2012

O mistério


Na morte, não. Na vida.
Está na vida o mistério.
Em cada afirmação ou
abstinência.
Na malícia
das plausíveis revelações,
no suborno
das silenciosas palavras.

Tu que estás morto
esgotaste o mistério.

Ora a distância perseguias,
ora recuavas.
Era apogeu ou o nirvana
que tateando buscavas?

Ah! Talvez fosse a morte.

Não se sabia quando vinhas
nem quando partias. Eras
o Esperado e o Inesperado.

Grandes navios viajavas
com a mesma estranha gratuidade
com que ao planalto descias
por uma escada de nuvens.
Belo de inconstância e arrojo
com teu lastro de intuições,
a um apelo da noite
todo te entregavas, trêmulo
entre carícias e tempestades.

Que mundo vinha nascendo?

Ah! Talvez fosse a morte.

Conheceste os suspiros,
o lento disfarce do sangue,
as rosas do espírito, as secas
rosas nos dedos trituradas.

Por uma solução ansiavas...

Ah! Talvez fosse a morte.

Agora estás poderoso
de indiferença, de equilíbrio.
Completo em ti mesmo, forro
de seduções e amarras.
Nada te açula ou tolhe.
És todo és um, apenas.
A plenitude da água,
da pedra, tens.
E és natural, és puro, és simples como
a água, a pedra.


Fragmento: Flor da Morte — Henriqueta Lisboa

domingo, abril 08, 2012

Paraíso


Será que Deus
Mora num sítio no céu?
Será que Ele
Ordenha nuvens pra chover?
A grama lá é toda azul?
Estrela é fruta de comer?

Será que Ele
Tem televisão?

Eu acho que não.

Eu acho
Que o sol
É o seu fogão.
E a lua,
Seu lampião.


Fragmento: Coleção Itaú de Livros Infantis
Bem-te-vi e outras poesias — Lalau e Laurabeatriz

VII


O efeito poessível


Pode o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadear um tornado no Texas? 
Edward Lorenz, 1961


Se as asas desta borboleta
— segundo a teoria do caos —
provocam que a terra
se abra em duas
                           e se torne inferno
no outro lado do mundo,

o que ocasiona o traço de uma
dezena de linhas, o vôo breve
de um poema, a queda em sombra
de uma folha?

                       podem criar
um abismo ao contrário, outra letra
na escritura do universo,
minha tatuagem sob tua pele,
um bosque com doze versos?

Qual é o efeito de um instante intenso e amoroso?



Fragmento: eXpírito multiversos — Rubén Mejía
Tradução: Floriano Martins

sexta-feira, abril 06, 2012

Loja de antiguidades


Existe em ti e em mim
essa nostalgia que nos faz andar
perdidos na poeira ambígua
dos recados do tempo.
O teu olhar demora-se nas lâmpadas
bordadas: Gallé, esse velho artesão,
sabia o que fazia.
E as unhas nacaradas da mulher
expõem o objeto carregado de beleza
sobre uma alma esteta
que tanto trabalho lhe deu a transformar.
Reparem nesta peça – e a sua garganta
ressoa a arte nova, imperiosa.
Buscamos no vivido um óleo
intransmissível
para os nossos corpos.
Silenciosamente andamos nessa gruta
dentro da cidade onde os ruídos caem
como lanças bárbaras
e a luz fria da noite
estilhaça a nossa vista.
É bom pousar assim tanta memória
nas mãos férteis e frágeis
das coisas esquecidas.
Mas à saída, justamente à porta,
as mãos de outra mulher, meticulosas,
rebuscavam no chão, entre outras peças,
outras coisas vividas, esquecidas,
enfim, outros destroços:
do fascínio da carne, os pedacinhos de ossos.


Fragmento: Armas Brancas e outros poemas — Armando Silva Carvalho

domingo, abril 01, 2012

Meia hora depois, tomei-lhe...



Meia hora depois, tomei-lhe a mão com sangue frio e disse-lhe no ouvido:

— Vossas armas, senhor?
— Saber-las-eis no lugar.
— Vossas testemunhas?
— À noite e minhas armas.
— A hora?
— Já.
— O lugar?
— Vireis comigo... Onde pararmos aí será o lugar...
— Bem, muito bem: estou pronto, vamos.



Fragmento: Noite na Taverna – Álvares de Azevedo