terça-feira, maio 21, 2013

de Mozart a Nannerl



Caríssima irmã,



Há muito não lhe escrevo, pois andava ocupado com minha ópera, mas como agora tenho tempo, estarei mais atento a esse meu dever. A ópera, Deus seja louvado, é um sucesso, pois todas as noites o teatro está cheio, para o grande espanto de todos, pois várias pessoas dizem que, desde que estou em Milão, nunca viram tamanhas multidões em uma primeira ópera. Papai e eu, graças a Deus, estamos bem, e espero que na Páscoa já possa contar tudo pessoalmente a você e a mamãe. Addio. Beijo a mão de mamãe. A propósito! Ontem a copista nos chamou e disse ter recebido ordens de transcrever minha ópera para a corte de Lisboa. Enquanto isso, adeus, minha querida mademoiselle irmã. Tenho a honra de ser, e continuar sendo por toda eternidade,



seu fiel irmão.

(ano 1770) 





Fragmento: As vidas Ilustradas dos Grandes Compositores

segunda-feira, maio 13, 2013

A carta de Mozart ao Abbé Bullinger sobre a morte da mãe, 3 de julho de 1778.


Meu mais querido amigo!

Só para você.

Lamente-se comigo, meu amigo! Este foi o dia mais triste de minha vida — escrevo esta às duas horas da manhã. Preciso dizer-lhe que minha mãe, minha querida mãe, faleceu! Deus a chamou para Si. Era sua vontade leva-la, isso pude ver claramente — por isso resignei-me à Sua vontade. Ele a deu para mim, por isso Ele tinha o direito de tirá-la de mim. Pense, porém, em toda a minha ansiedade, nos temores e tristezas que tive de suportar nos últimos quinze dias. Ela estava praticamente inconsciente no momento de sua morte — sua vida apagou-se como a chama de uma vela. Três dias antes de morrer ela se confessou, recebeu o Sacramento e a extrema-unção. Durante os últimos três dias, no entanto, delirou constantemente e hoje, às cinco horas e vinte e um minutos, a agonia da morte começou e ela perdeu todas as sensações e a consciência. Apertei-lhe a mão e falei com ela — mas ela não me viu, não me ouviu, todos os seus sentidos haviam desaparecido. Ela ficou assim até ter expirado, cinco horas depois, às dez horas e vinte e um minutos. Só estávamos presentes eu, Herr Haina (um gentil amigo que meu pai conhece) e a enfermeira. É impossível para mim descrever hoje todo o decorrer de sua doença, mas estou firmemente convencido de que ela estava predestinada a morrer e que Deus assim o havia ordenado. Tudo que lhe peço neste momento é que represente o papel de um verdadeiro amigo, preparando meu pobre pai com muito cuidado para esta triste notícia. Escrevi uma carta para ele, por este mesmo correio, mas só para dizer que ela está seriamente doente; e agora só para dizer que ela está seriamente doente; e agora vou esperar que ele me responda, e guiar-me por essa resposta. Que Deus dê a ele força e coragem! Oh, meu amigo! Não me sinto consolado só agora, como há algum tempo venho tendo consolo. Com a misericórdia de Deus suportei tudo com firmeza e compostura. Quando a doença dela se tornou perigosa, supliquei a Deus apenas duas coisas — uma morte feliz para ela, e força e coragem para mim mesmo; e Deus, em Sua bondade, ouviu minha prece e me concedeu essas duas bênçãos com máxima prodigalidade. Suplico-lhe, portanto, meu mais querido amigo, que cuide de meu pai por mim e tente dar-lhe coragem, de forma que, quando ele souber do pior, não receba o golpe com muita dureza. Recomendo-lhe também minha irmã, de todo o meu coração. Vá procurá-los imediatamente, eu lhe imploro — mas não lhes conte que ela já morreu — apenas prepare-os para isso. Faça o que achar melhor — use todos os meios possíveis para consolá-los — mas aja de forma a tirar-me esse peso da cabeça — e que eu não precise temer um novo golpe. Cuide de meu querido pai e minha querida irmã para mim. Responda-me imediatamente, eu lhe imploro. Adieu, Seu criado mais obediente e grato.

Wolfgang Amadè Mozart


A mãe de Mozart, Anna-Maria.
Retrato de artista descohecido, c. 1775 (Mozarteum de Salzburgo)



Fragmento: As vidas Ilustradas dos Grandes Compositores

quarta-feira, agosto 15, 2012

palavr[e(xpress)ar]

Para Amir Brito Cadôr, por mais um ano.
De lucas repetto.


I

O quê palavr[e(xpress)ar] para um magistral dos caracteres desenhados ou escritos?

— vividos —

(sendo tudo um todo e es[s][t]e todo o tudo de nós)

II

Reino sem fim do sentimento.

Sem fim também o que mantemos no sonho.

(não era melhor rimar? mas, será que o melhor é o que há no intento?)

III

Logo, parabéns para você.

Uma flor riscada também.

(...)


sábado, junho 30, 2012

Fadiga


Estou cansada, tão cansada,
estou tão cansada! Que fiz eu?
Estive embalando, noite e dia,
um coração que não dormia
desde que o seu amor morreu.

Eu lhe dizia: ''Deixa a morte
levar teu amor! Não faz mal.
É mais belo esse heroísmo triste
de amar uma coisa que existe
só para morrer, afinal!...

Deixa a morte... Não chores... dorme!''
Noite e dia eu cantava assim.
Mas o coração não falava:
chorava baixinho, chorava,
mesmo como dentro de mim.

Era um coração de incertezas.
feito para não ser feliz;
querendo sempre mais que a vida
— sem termo, limite, medida.
como poucas vezes se quis.

O tempo era ríspido e amargo.
Vinha um negro vento do mar.
Tudo gritava, noite e dia
— e nunca ninguém ouviria
aquele coração chorar.

Uma noite, dentro da sombra,
dentro do choro, a sua voz
disse uma coisa inesperada,
que logo correu, derramada
num silêncio fino e veloz.

''Meu amor não morreu: perdeu-se.
Ele existe. eu não o quero mais.''
O choro foi levando o resto.
Eu nem pude fazer um gesto,
e achei as horas desiguais.

E achei que o vento era mais forte,
que o frio causava aflição;
quis cantar, mas não foi preciso.
E o ar estava muito indeciso
para dar vida a uma canção.

A sorte virara no tempo
como um navio sobre o mar.
O choro parou pela treva.
E agora não sei quem me leva
daqui para qualquer lugar,

onde eu não escute mais nada,
onde eu não saiba de ninguém.
onde deite a minha fadiga
e onde murmure uma cantiga
para ver se durmo, também.


Fragmento: Viagem & Vaga Música — Cecília Meireles

sábado, junho 23, 2012

É estranho


É estranho que, após o pranto
vertido em rios sobre os mares,
venha pousar-te no ombro
o pássaro das ilhas, ó náufrago.

É estranho que, depois das trevas
semeadas por sobre as valas,
teus sentidos se adelgacem
diante das clareiras, ó cego.

É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.


Fragmento: Flor da Morte — Henriqueta Lisboa

terça-feira, junho 19, 2012

Pra ganhar um arco-íris

Para Paulo Carvalho (Pretty), por mais um ano.
De lucas repetto.

O médico franze o cenho
e em voz baixa, num cochicho,
diz é coisa grave,
pode morrer.

A casa emudece. Pétalas
tombam do vaso, na toalha.
A mãe de Lico chora, chora
e depois se cala.

O pai se levanta
e parte, após muita espera.
E volta tarde, bem tarde:
arrasta um arco-íris
de primavera.
— Pra ti, guri.

E Lico sara,
abre um sorriso
está feliz, bem se vê,
e eu imagino um jeito
de adoecer.


Fragmento: Restos de arco-íris — Sérgio Caparelli